LÚCIA MENEZES

 

Febre de Amor (Lauro Maia)

 

:::::::LÚCIA MENEZES LANÇA SEU CD NO TEATRO CROWNE PLAZA EM SÃO PAULO:::::::

 

"Lúcia pode não ser ainda"nacional" no sentido do reconhecimento,
mas isso é questão de tempo. Em temperamento, escolha do repertório
e jeito de cantar, ela é, isto sim, uma legítima cantora brasileira".
Ruy Castro

O QUE VIER ELA TRAÇA

Lúcia Menezes é uma cantora do bom e do melhor Ceará: aquele que, sem deixar de ser, com orgulho, cearense, também consegue ser vastamente nacional - por ser, ao mesmo tempo, um pólo irradiador de cultura e um receptor de todas as boas coisas produzidas fora das suas fronteiras. (É por isso que o cearense está em toda parte. Já reparou na quantidade de cearenses "nacionais" na história do Brasil?)

Lúcia pode não ser ainda "nacional" no sentido do reconhecimento, mas isso é questão de tempo. Em temperamento, escolha do repertório e jeito de cantar, ela é, isto sim, uma legítima cantora brasileira. O temperamento é o mesmo que, começando por Carmen Miranda em 1930, gerou todas as cantoras brasileiras "de bossa" - aquelas que não vacilam em emprestar uma saudável malandrice às letras, à divisão rítmica e até à inflexão de certas sílabas. Seu repertório é um amplo leque de sambas, choros, baiões, xaxados, maracatus, toadas, baladas, emboladas e, se precisar, valsas e sambas-canções ou de breque - quer mistura mais brasileira? E o jeito de cantar, terno ou esfuziante, romântico ou humorístico conforme o caso, demonstra o profissionalismo e a tarimba, tipo "o que vier eu traço" - e traça mesmo, como diz no samba de Alvaiade, em que vai acelerando o ritmo até chegar a uma velocidade de quebra-língua (não há muita gente na praça capaz dessa proeza hoje em dia).

Lúcia Menezes, lançado pela Kuarup e seu primeiro disco para valer, é a prova de tudo isso. Começa pela produção de José Milton, uma espécie de mago que já pôs nos trilhos a carreira de várias boas cantoras que não conseguiam deslanchar. Tudo que ele toca dá certo. Ao trabalhar com um material como o de Lúcia, então, é covardia. Principalmente por cercá-la de dois nomes como o pianista Cristóvão Bastos e o violonista João Lyra. Eles se revezam nos arranjos, comparecem em todas as faixas e alternam uma dicção carioca ou nordestina na sonoridade do disco, que vai das flautas de Dirceu Leite à sanfona de Adelson Viana, dos pandeiros e tamborins de Oscar Bolão aos triângulos e zabumbas de Durval. Em muitos momentos, o que esses músicos fazem é uma fusion usando os dois melhores materiais musicais do
mundo: uma fusion de Brasil com Brasil.

A seleção de repertório, que deve ter dado muito trabalho a Lúcia, Nelson Silveira e José Milton - pela riqueza de títulos a escolher - não se limita a uma viagem no espaço. É também uma viagem no tempo. Começa pelo grande pianista, acordeonista e letrista cearense Lauro Maia (1912-1950), mais famoso hoje por Trem de ferro (sucesso dos Quatro Azes e Um Coringa em 1944 e de João Gilberto em 1961), mas que deixou muita coisa boa, como o samba Febre de Amor, que Lúcia incorporou faz tempo a seu repertório e o canta sempre que pode. Lúcia vai ainda mais longe e traz pela mão o histórico violonista João Pernambuco (1883-1947) de Estrada do Sertão, que recebeu uma letra póstuma e bem à propos de Hermínio Bello de Carvalho. E outro pernambucano de estirpe, Manezinho Araújo (1910-1993), é recuperado com o
divertido O Carrité do Coroné. Apostar no sucesso é fácil, mas o grande cantor é também aquele que mantém vivas as canções ameaçadas de extinção.

A fusion continua com os cariocas que se aventuraram pelos ritmos nordestinos, como em Serafim e Seus Filhos, de Ruy Mauriti; Verdes Mares, em que Paulo César Pinheiro recria toda uma geografia cearense que cai tão bem no repertório de Lúcia; e, claro, A Violeira, de Tom Jobim e Chico Buarque, uma saga que começa no sertão e acaba em Ipanema. E o que dizer de Cheirinho de Mulher, de Sivuca e Glorinha Gadelha, que nos apresenta ao delicioso (e maroto) verbo forrofiar? E Lúcia descobre a perfeita naturalidade de juntar, num mesmo disco, Zeca Baleiro e Ednardo com o Alberto Janes do clássico fado Foi Deus. Tudo é música quando a alma não é pequena.
Por falar em O que Vier eu Traço, os versos dizem, "Não me atrapalho na música/ Nem mesmo sendo sinfônica/ Procuro tornar simpática/ A minha voz microfônica". Pois, acredite ou não, este samba é de 1926, do tempo em que o microfone acabara de ser inventado. Desde então, muito cantor já foi salvo pelo microfone. Lúcia Menezes, ao contrário, é daquelas
que ensinam ao microfone o que se pode fazer com ele.

Por Ruy Castro

 

 

:::::::AGENDA DE SHOWS EM SÃO PAULO:::::::

:::::::fotos acima - Mistura Fina - por Emir Penna::::::::

:::::::LANÇAMENTO DO CD LÚCIA MENEZES::::::

Local - Teatro Crowne Plaza (R. Frei Caneca, 1360 -Cerqueira César - São Paulo - SP) - Tel (11)

Dia: 30/08 (terça) e 31 (quarta) - 21h

Mais Informações - (11) 3662 2669 e 3864 6633

FICHA TÉCNICA::::::::

Direção Geral - José Milton

Direção Musical - João Lyra

Banda:::::::

João Lyra - Violões

Cristovão Bastos - Arranjos e Teclado

Dirceu Leite - Flautas, Clarinete e Sax

Jamil Joanes - Contrabaixo

Adelson Viana - Sanfona

Zé Leal e Firmino - Percussões


:::::::FOTOS:::::::

 

:::::::fotos acima - Teatro Rival- por Emir Penna::::::::


:::::::OUTRAS FOTOS:::::::

:::::::Lúcia Menezes e Ruy Mauriti:::::::

:::::::Lúcia Menezes e José Milton:::::::

:::::::fotos acima - Modern Sound - por Cristina Granato:::::::

:::::::foto acima - Teatro José de Alencar - por Eliane Albuquerque:::::::